Os flashs de lembranças da noite passada me atormentam, o
sabor da expectativa misturado com vodka e cocaína, me odeio a cada segundo e
sinto vergonha do mundo, o meu único desejo é sumir. Meu estômago se revira,
depois de quatro horas na nóia do pó veio a ressaca do álcool, as palavras das
prostitutas se intercalam com meu choro desesperado e desnecessário. A roupa
cuidadosamente escolhida, agora amassada no chão, com cheiro forte de perfume,
umas cinco esguichadas. No peito o coração metralha, a diazepam ainda não fez
efeito.
Vergonha,
tantas mensagens, tanto preparo, tanta expectativa pra nada. Não quero sair do
quarto. Essa bile amarela da cor do meu sorriso, fragmentos das canções do Neil
Diamond e o meu tio louco cantando sertanejo no karaoke. Tanta coisa numa só
noite, o quarto gira e a imagem dela passeando com o cachorro de repente surge
na minha cabeça.
Eram sete e
meia quando comecei a me arrumar, tomei banho, escovei os dentes duas vezes,
sequei o cabelo e o desodorante no ventilador, experimentei diferentes roupas
na frente do espelho tentando me sentir bonito, chiclete de menta forte, que
aliás me dá ânsia de vômito até agora. Uma das prostitutas me fazia ler essas
mensagens de auto-ajuda e comentava as frases bêbada, a garganta seca no ápice
do efeito da cocaína enquanto ela bicava uma pinga amarela na garrafa de
coca-cola. O jeito destrambelhado
dela e o óculos de fundo de garrafa, fumávamos um todos os dias juntos.
Aquele perfume doce e estranho que eu não gosto e as meias
calças sempre rasgadas. Enquanto eu cheirava no banheiro do psiquiatra eu ouvia
os gritos dos loucos e suava frio, o efeito da cocaína durava cada vez menos.
Aqueles pés brancos leitosos e a sapatilha azul, os soutiens jogados na cadeira
do quarto e o cheiro de maconha impregnado.
Tomei
mais uma diazepam, o escroto do meu irmão ligou o som, uma dessas músicas
sertanejas idiotas da moda. As prostitutas sempre ganhavam na caxeta. Os olhos
dela pequenos de chapada e a franja alisada na testa. Nunca tinha tomado
diazepam antes, meus reflexos estão devagar. Noite maldita. Desliguei meu
celular, vou sumir por uns dias, tenho que aprender a conviver comigo mesmo, me
suportar. O vestido mostrando o ombro, a estrela e a alça do soutien, enquanto
o cachorro enlouquecido a puxava. Na hora de ir embora me despedi da
prostituta e agradeci pelos conselhos e
pela atenção, lhe dei um abraço apertado. Ela pálida, branca e linda, de costas
trocando a blusa com aquela tatuagem vermelha se destacando, nunca consegui
identificar exatamente o que está desenhado. Ela conversava com todos e
abraçava todos, menos eu, fiquei de canto todo o tempo, ora desabafando por
mensagens, ora chorando, ridículo. No olhar dela havia dó e desprezo. As mãos
bonitas com as unhas roídas fazendo o baseado mal bolado. Mais uma vez o cara
da favela me chamou a atenção por causa do farol ligado, o pó de lá é o melhor.
Amanhã vou pra fazenda de um tio-avô, sem celular, sem internet e sem ela ou
qualquer outro da noite passada.
Ela dançando bêbada e feliz, esbarrando a
bunda em todo mundo. Aquela banda de reggae e meia dúzia de idiotas que eu
teria prazer em socar. Os pontinhos vermelhos de casquinhas de espinha e os
dentes nervosos de anfetamina.
O
desgraçado do meu irmão com a merda do som de novo. Estou tremendo, nariz
entupido e lábios secos. Primeiro bocejo. Sinto que vou desmaiar a qualquer
momento, muita tontura. Cada assoada de nariz é uma mancha vermelha na toalha
branca. Não consigo me mexer direito, tomara que eu durma até amanhã. Tô
grogue.


1 Comments:
um passeio pelo submundo!
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